Doenças Hereditárias da Retina

Doenças hereditárias da retina: diagnóstico e acompanhamento especializado em São Paulo

Retinose pigmentar, doença de Stargardt e outras distrofias da retina — investigação detalhada, teste genético quando indicado e acompanhamento especializado.
Dra. Maria Fernanda Abalem, oftalmologista, realizando exame no consultório

O que são doenças hereditárias da retina?

Doenças hereditárias da retina são um grupo de doenças genéticas que afetam a retina e causam perda de visão progressiva — algumas desde a infância, outras só na vida adulta. A retina é a camada no fundo do olho que capta a luz e permite enxergar; nessas doenças, alterações nos genes fazem suas células se degenerem aos poucos. São condições raras, que afetam cerca de 1 em cada 2.000 a 4.000 pessoas.

Quais são os sintomas das doenças hereditárias da retina?

São mais de 250 genes envolvidos e dezenas de condições. As mais frequentes:
  • Dificuldade para enxergar à noite (cegueira noturna), muitas vezes o primeiro sinal
  • Perda da visão periférica (visão em túnel): tropeços e esbarrões nas laterais
  • Redução da visão central: dificuldade para ler e reconhecer rostos
  • Sensibilidade à luz (fotofobia)
  • Alteração na percepção das cores
  • Baixa visão desde a infância, em alguns casos
Esses sintomas têm várias causas. Só a avaliação especializada define se há uma doença hereditária da retina. Um diagnóstico, porém, não significa cegueira certa: a evolução varia muito conforme a doença, o gene envolvido e a pessoa, e muitos pacientes mantêm visão útil por toda a vida.

Quais são as principais doenças hereditárias da retina?

São mais de 250 genes envolvidos e dezenas de condições. As mais frequentes:

Retinose Pigmentar

Cegueira noturna e perda gradual da visão periférica. A mais comum do grupo.

Doença de Stargardt

Perda da visão central, geralmente a partir da infância ou adolescência.

Distrofias de Cones

Alteração de cores, sensibilidade à luz e perda visual progressiva.

Amaurose Congênita de Leber

Baixa visão importante desde os primeiros meses de vida.

Demais condições avaliadas

Também acompanhamos outras doenças hereditárias da retina, entre elas:

Doença hereditária da retina tem cura? E a terapia gênica?

A maioria ainda não tem cura, mas a terapia gênica já é realidade para casos específicos e avança rapidamente.

Hoje existe uma terapia gênica aprovada no Brasil para pacientes com alteração no gene RPE65 (uma forma específica). Para os demais genes, há pesquisas em diferentes estágios — terapia gênica, terapia celular e edição genética. Enquanto isso, o acompanhamento permite retardar a progressão, tratar complicações e preservar a visão funcional.

É essencial distinguir o que já está aprovado do que ainda está em estudo. Nem todo paciente é candidato a terapia gênica. Parte do cuidado é justamente avaliar, caso a caso, quais são as opções reais — com informação confiável e expectativas realistas.

Dra. Maria Fernanda Abalem
CRM-SP 152796 · RQE 123964

Conheça a Dra. Maria Fernanda Abalem

Chefe da Divisão de Genética Ocular do Hospital das Clínicas da USP e professora pesquisadora no Kellogg Eye Center, University of Michigan.

A Dra. Maria Fernanda Abalem é oftalmologista em São Paulo. Une atendimento clínico, ensino e pesquisa científica para oferecer um cuidado completo — da consulta geral às doenças hereditárias da visão.

Atende pacientes de todo o país, muitos encaminhados por outros médicos ou em busca de uma segunda opinião especializada. Cada caso é avaliado a partir da sua história, da sua família e dos seus exames, com diagnóstico baseado em evidências.

Chefe da Divisão
de Genética Ocular

Hospital das Clínicas, USP

Professora e pesquisadora

Kellogg Eye Center,
University of Michigan

Residência Médica e Mestrado em Oftalmologia

Universidade Federal do Rio de Janeiro

Doutorado em retina

Universidade de São Paulo

Pós-doutorado
em genética ocular

University of Michigan

Guia completo sobre doenças hereditárias da retina

As informações abaixo aprofundam o diagnóstico, o acompanhamento e o impacto das doenças hereditárias da retina. Abra as seções que fizerem sentido para o seu caso.

Um diagnóstico de doença hereditária da retina significa cegueira?

Não necessariamente.

Receber o diagnóstico ou a suspeita de uma doença hereditária da retina pode gerar muita preocupação, e uma dúvida frequente é se esse tipo de doença sempre leva à cegueira.

As doenças hereditárias da retina formam um grupo muito amplo e heterogêneo. Elas não se comportam todas da mesma forma. A evolução depende de vários fatores, incluindo:

  • o gene envolvido;
  • o tipo de alteração genética;
  • o padrão de herança;
  • a idade de início dos sintomas;
  • quais células da retina são mais afetadas;
  • se a mácula está preservada;
  • se há complicações tratáveis;
  • o tipo de progressão;
  • fatores individuais de cada paciente;
  • outras condições oculares ou sistêmicas associadas.

Por isso, duas pessoas com o mesmo diagnóstico clínico, como “retinose pigmentar” ou “distrofia de retina”, podem ter evoluções diferentes. Em alguns casos, a doença progride lentamente e a pessoa mantém visão útil por muitos anos. Em outros, a perda visual pode ser mais precoce ou mais intensa.

O diagnóstico de uma doença hereditária da retina não deve ser entendido automaticamente como uma sentença de cegueira. Cada caso precisa ser avaliado individualmente.

Por que a retina é tão importante para a visão?

A retina funciona como uma camada sensível à luz no fundo do olho. Ela transforma estímulos luminosos em sinais elétricos que serão transmitidos ao cérebro pelo nervo óptico.

Dentro da retina, existem células especializadas chamadas fotorreceptores:

  • Bastonetes, importantes para a visão em ambientes escuros e para a visão periférica;
  • Cones, importantes para a visão central, as cores e os detalhes finos.

Algumas doenças hereditárias afetam inicialmente os bastonetes, causando cegueira noturna e perda de campo visual. Outras afetam mais os cones e a mácula, levando à redução da visão central, dificuldade de leitura e fotofobia.

Entender qual região da retina está acometida ajuda a orientar o diagnóstico, os exames necessários, a interpretação genética e o acompanhamento.

Como as doenças hereditárias da retina são transmitidas?

Essas condições podem ser causadas por alterações em muitos genes diferentes. Atualmente, centenas de genes já foram associados a doenças hereditárias da retina, e novos genes continuam sendo descritos com o avanço da pesquisa científica.

Elas podem seguir diferentes padrões de herança, como:

  • herança autossômica dominante;
  • herança autossômica recessiva;
  • herança ligada ao X;
  • herança mitocondrial em situações específicas;
  • casos aparentemente isolados, sem outros familiares conhecidos.

A ausência de histórico familiar não exclui uma doença genética. Em muitas famílias, o paciente é o primeiro a receber o diagnóstico, seja por herança recessiva, mutação nova, familiares não diagnosticados ou manifestações muito variáveis da doença.

Quando suspeitar de uma doença hereditária da retina?

Uma doença hereditária da retina pode ser suspeitada quando há:

  • cegueira noturna;
  • perda progressiva de campo visual;
  • baixa visão em criança, adolescente ou adulto jovem;
  • redução da visão central sem causa clara;
  • alteração macular em paciente jovem;
  • distrofia de retina diagnosticada previamente;
  • múltiplos familiares com baixa visão;
  • histórico familiar de cegueira;
  • consanguinidade;
  • nistagmo desde a infância;
  • fotofobia intensa;
  • alteração de cores;
  • exames de retina com achados sugestivos;
  • teste genético ocular já realizado, mas com dúvidas sobre a interpretação.

Nesses casos, a avaliação especializada é importante para organizar o diagnóstico e orientar os próximos passos.

Retinose pigmentar: o que é e como evolui

A retinose pigmentar é um grupo de doenças hereditárias da retina que afeta principalmente os fotorreceptores, especialmente os bastonetes nas fases iniciais.

Os sintomas mais frequentes são:

  • cegueira noturna;
  • dificuldade para enxergar em ambientes escuros;
  • perda progressiva do campo visual periférico;
  • tropeços ou esbarrões laterais;
  • visão em túnel em fases mais avançadas;
  • redução da visão central em alguns casos.

A retinose pigmentar pode ter diferentes padrões de herança, incluindo autossômico dominante, autossômico recessivo e ligado ao X.

É importante lembrar que retinose pigmentar não é uma única doença, mas um conjunto de condições que podem ser causadas por diferentes genes. Por isso, a evolução pode variar muito entre pacientes.

Algumas pessoas mantêm visão central e autonomia por muitos anos. Outras podem ter perda visual mais significativa. O teste genético pode ajudar a identificar o gene envolvido, orientar familiares, esclarecer o padrão de herança e avaliar possibilidades de terapias específicas ou estudos clínicos quando aplicável.

Stargardt, distrofias maculares, distrofias de cones e amaurose congênita de Leber

A doença de Stargardt é uma das distrofias maculares hereditárias mais conhecidas. Ela afeta principalmente a mácula, região da retina responsável pela visão central.

Os sintomas podem incluir dificuldade para leitura, redução da visão central, dificuldade para reconhecer rostos, manchas centrais na visão, alteração na percepção de cores e sensibilidade à luz. O início costuma ocorrer na infância, na adolescência ou na vida adulta jovem, embora exista variação.

A doença de Stargardt está associada a alterações no gene ABCA4, mas outras condições podem se parecer com Stargardt. Por isso, o diagnóstico deve integrar exame clínico, imagem da retina e teste genético quando indicado. A identificação correta do gene é importante para o diagnóstico, a orientação familiar e a possível elegibilidade futura para estudos ou terapias direcionadas.

Além da doença de Stargardt e da doença de Best, há outras distrofias maculares hereditárias que podem causar redução da visão central, dificuldade de leitura, alteração de cores, distorção visual e perda visual progressiva. A diferenciação entre elas depende de exames de imagem, do padrão de evolução, da história familiar e do teste genético quando indicado.

As distrofias de cones e bastonetes são doenças hereditárias da retina que podem afetar tanto a visão central quanto a visão periférica.

Quando os cones são mais afetados, os sintomas podem incluir redução da visão central, fotofobia, alteração de cores e dificuldade para leitura.

Quando os bastonetes também são comprometidos, podem surgir cegueira noturna, perda de campo visual e dificuldade em ambientes escuros.

A evolução varia muito entre pacientes. O diagnóstico depende da combinação entre sintomas, exame oftalmológico, exames de imagem, testes funcionais e investigação genética.

A amaurose congênita de Leber é uma doença hereditária da retina de início muito precoce, geralmente nos primeiros meses de vida ou na infância.

Pode causar:

  • baixa visão importante desde cedo;
  • nistagmo;
  • dificuldade de fixação visual;
  • fotofobia;
  • alterações importantes no eletrorretinograma;
  • manifestações variáveis conforme o gene envolvido.

Essa condição é particularmente relevante na era da medicina de precisão, porque alguns subtipos genéticos já têm terapias gênicas aprovadas ou em estudo. Por isso, o diagnóstico molecular pode ser essencial para definir o subtipo da doença, orientar a família e avaliar possibilidades terapêuticas específicas.

Acromatopsia, retinosquise, coroideremia, doença de Best e albinismo

A acromatopsia afeta principalmente os cones, células responsáveis pela visão de cores e pela visão de alta resolução. Os sintomas mais comuns são fotofobia intensa, baixa visão desde a infância, nistagmo, alteração importante da visão de cores e dificuldade em ambientes muito iluminados. Costuma ser percebida cedo, muitas vezes na infância, e o diagnóstico pode envolver exame oftalmológico, OCT, testes funcionais e teste genético.

A retinosquise juvenil ligada ao X afeta principalmente meninos e homens, embora mulheres possam ser portadoras. Pode causar redução da visão central, alterações na mácula, dificuldade escolar por baixa visão, alterações características no OCT e risco de complicações retinianas em alguns casos. O reconhecimento da herança ligada ao X é importante para orientar familiares, especialmente mães, irmãs e outras parentes.

A coroideremia afeta a retina, o epitélio pigmentar da retina e a coroide. Geralmente causa cegueira noturna, perda progressiva do campo visual, preservação relativa da visão central até fases mais avançadas e acomete principalmente homens, com padrão de herança ligado ao X. É uma das doenças hereditárias da retina que têm sido estudadas em pesquisas de terapia gênica, o que torna o diagnóstico genético especialmente relevante.

A doença de Best e outras distrofias viteliformes afetam principalmente a mácula, podendo causar alterações na visão central, distorção visual, lesões maculares características e redução visual variável. Essas doenças podem ser confundidas com outras alterações da mácula, incluindo a degeneração macular relacionada à idade em determinados contextos. A avaliação especializada ajuda a diferenciar os diagnósticos.

O albinismo ocular e o albinismo oculocutâneo podem afetar o desenvolvimento visual e a retina.

Podem estar associados a baixa visão desde a infância, nistagmo, fotofobia, alteração da pigmentação ocular, hipoplasia foveal, estrabismo e alterações na visão binocular.

A avaliação oftalmológica ajuda a caracterizar o impacto visual e a orientar acompanhamento, reabilitação e avaliação genética quando apropriado.

Como é feito o diagnóstico?

O diagnóstico geralmente é construído a partir da combinação de várias informações. Raramente depende de um único exame.

1. História clínica. Busca entender a idade de início dos sintomas, o primeiro sintoma percebido, a presença de cegueira noturna, dificuldade de leitura, fotofobia, perda de campo visual, a velocidade e o padrão de progressão, o impacto na vida diária, os exames anteriores e os diagnósticos prévios.

2. História familiar. É essencial nas doenças hereditárias da retina. Durante a consulta, podem ser investigados familiares com baixa visão, casos de cegueira, parentes com diagnóstico semelhante, consanguinidade, idade de início da perda visual nos familiares, quais homens e mulheres foram afetados e o padrão de transmissão entre gerações. Em alguns casos, é construído um heredograma, ou árvore familiar, para compreender melhor o padrão de herança.

3. Exame oftalmológico completo. Pode avaliar acuidade visual, refração, pressão intraocular, segmento anterior, cristalino, vítreo, retina, mácula, nervo óptico e retina periférica. Mesmo em doenças genéticas, o exame clínico continua sendo fundamental: o teste genético não substitui a avaliação oftalmológica.

4. Imagem multimodal da retina. É uma parte central da avaliação das distrofias hereditárias. Podem ser utilizados retinografia, autofluorescência, OCT de mácula, OCT de nervo óptico quando indicado, angio-OCT, angiografia fluoresceínica em situações específicas, imagem de campo amplo e avaliação da retina periférica. Esses exames ajudam a caracterizar o padrão da doença, documentar a extensão das alterações e acompanhar a evolução ao longo do tempo.

5. Testes funcionais. Avaliam a função da retina e incluem eletrorretinograma de campo total, eletrorretinograma multifocal, eletro-oculograma, campo visual, microperimetria, testes de visão de cores e testes de adaptação ao escuro. Eles ajudam a entender quais células e regiões da retina estão funcionando de forma alterada.

6. Teste genético ocular. Pode confirmar o diagnóstico molecular, identificar o gene envolvido, diferenciar doenças parecidas, esclarecer o padrão de herança, orientar risco para familiares, identificar familiares em risco, avaliar elegibilidade para terapias específicas e estudos clínicos e contribuir para o planejamento familiar quando apropriado.

O nome da doença é importante, mas muitas vezes não conta a história inteira.

Termos como retinose pigmentar, doença de Stargardt ou distrofia hereditária da retina descrevem grupos de doenças que podem ter diferentes causas genéticas e diferentes padrões de evolução.

Por isso, a avaliação especializada busca responder perguntas mais específicas:

  • Qual é a doença mais provável?
  • Qual parte da retina está mais afetada?
  • A visão central está preservada?
  • Há perda de campo visual?
  • A doença está estável ou progredindo?
  • Existe alguma complicação tratável?
  • Há indicação de teste genético?
  • O gene envolvido muda o prognóstico ou o acompanhamento?
  • Familiares precisam ser avaliados?
  • Há terapias ou estudos relacionados àquele gene?

Essa abordagem ajuda a transformar um diagnóstico amplo em um plano de cuidado mais individualizado.

O que o teste genético acrescenta ao diagnóstico?

Em muitos casos, o diagnóstico clínico é apenas o primeiro passo. Dois pacientes com o mesmo diagnóstico, como retinose pigmentar, podem ter alterações em genes diferentes, padrões de herança distintos, riscos familiares diferentes e possibilidades diferentes de acompanhamento ou pesquisa. Da mesma forma, alterações em um mesmo gene podem causar apresentações clínicas variadas.

Identificar o gene e, quando possível, o tipo de variante genética pode ajudar a:

  • confirmar o diagnóstico molecular;
  • diferenciar doenças que se parecem clinicamente;
  • entender melhor o padrão de herança;
  • orientar o risco para filhos, irmãos e outros familiares;
  • identificar familiares que podem se beneficiar de avaliação;
  • estimar melhor o comportamento esperado da doença em alguns casos;
  • avaliar se há manifestações associadas fora dos olhos;
  • verificar elegibilidade para terapias específicas ou estudos clínicos;
  • acompanhar avanços científicos relacionados àquele gene;
  • planejar o acompanhamento de forma mais individualizada.

É importante destacar que o teste genético não é uma “bola de cristal”. Ele nem sempre prevê exatamente como será a evolução visual de uma pessoa. O resultado também pode ser inconclusivo ou identificar variantes de significado incerto. Por isso, deve ser interpretado junto com o exame oftalmológico, os exames de imagem, os testes funcionais e a história familiar.

Terapia gênica, terapia celular e novas pesquisas

As doenças hereditárias da retina estão entre as áreas mais ativas da pesquisa em oftalmologia. Nos últimos anos, houve avanços importantes em:

  • terapia gênica;
  • terapia celular;
  • edição gênica;
  • terapias baseadas em RNA;
  • medicamentos direcionados;
  • optogenética;
  • neuroproteção;
  • dispositivos de visão artificial;
  • biomarcadores de imagem;
  • inteligência artificial aplicada à progressão da doença;
  • desfechos funcionais e relatados por pacientes.

É importante destacar que esses tratamentos geralmente são altamente específicos: dependem do gene envolvido, do tipo de variante, da fase da doença, da estrutura da retina ainda preservada e de critérios clínicos rigorosos.

Ao mesmo tempo, é fundamental manter expectativas realistas. Nem toda doença hereditária da retina tem tratamento específico disponível no momento, e nem todo paciente é candidato a terapia gênica ou celular. Ainda assim, o acompanhamento especializado permite monitorar avanços científicos e planejar o cuidado de forma mais informada.

Complicações associadas que podem ser tratadas

Algumas doenças hereditárias da retina podem apresentar complicações que têm tratamento, mesmo quando a doença genética de base ainda não tem terapia específica.

Exemplos incluem:

  • catarata;
  • edema macular cistoide;
  • membrana epirretiniana;
  • neovascularização em algumas condições;
  • alterações vitreorretinianas;
  • roturas ou descolamento de retina em doenças específicas;
  • olho seco ou desconforto ocular associado;
  • dificuldades refracionais.

A formação em retina clínica e cirúrgica pode ser importante para reconhecer essas alterações e indicar o tratamento adequado quando necessário.

Se não existe cura, por que acompanhar?

Na maioria das doenças hereditárias da retina, ainda não existe uma cura definitiva amplamente disponível. No entanto, isso não significa que “não há nada a fazer”.

O cuidado especializado pode ajudar a:

  • confirmar ou refinar o diagnóstico;
  • identificar o gene envolvido quando possível;
  • acompanhar a evolução da doença;
  • detectar e tratar complicações associadas;
  • otimizar a saúde ocular geral;
  • orientar recursos de baixa visão;
  • apoiar estratégias de adaptação e autonomia;
  • avaliar terapias específicas quando disponíveis;
  • acompanhar estudos clínicos e avanços científicos;
  • orientar familiares;
  • planejar o cuidado visual a longo prazo.

Mesmo quando não há uma terapia curativa para a doença de base, é possível trabalhar para preservar a melhor visão funcional possível, otimizar a saúde ocular, manter autonomia, orientar adaptações e melhorar a qualidade de vida. O objetivo é cuidar da pessoa, não apenas do diagnóstico.

Autonomia, adaptação e qualidade de vida

O cuidado em doenças hereditárias da retina não se limita a medir a visão ou acompanhar exames. Muitas vezes, o objetivo é ajudar o paciente a manter autonomia, segurança e qualidade de vida pelo maior tempo possível.

Alguns pacientes têm dificuldade para dirigir à noite. Outros apresentam dificuldade para leitura, estudo, trabalho, mobilidade, reconhecimento de rostos ou adaptação a ambientes escuros. Além dos exames, é importante compreender como a visão afeta a rotina de cada pessoa.

Mesmo quando a doença não tem cura, há medidas que podem fazer diferença na vida diária. Entre elas:

  • correção adequada do grau;
  • tratamento de catarata quando indicada;
  • tratamento de edema macular ou outras complicações;
  • orientação sobre iluminação e contraste;
  • recursos ópticos e eletrônicos de baixa visão;
  • adaptações no ambiente de estudo ou trabalho;
  • tecnologias de acessibilidade;
  • acompanhamento psicológico quando necessário;
  • orientação familiar;
  • planejamento de longo prazo.

Preservar autonomia é uma parte essencial do cuidado.

Impacto emocional, família e apoio

As doenças hereditárias da retina podem afetar muito mais do que a visão. O impacto emocional e psicossocial também deve ser reconhecido e considerado no cuidado.

Receber o diagnóstico de uma doença genética ocular pode gerar medo, insegurança, ansiedade e muitas dúvidas sobre o futuro. Alguns pacientes se preocupam com a possibilidade de progressão da perda visual, com trabalho, estudos, direção, independência, relacionamentos, planejamento familiar e qualidade de vida.

Esse impacto não acontece apenas com o paciente. Familiares, parceiros, pais, filhos e cuidadores também podem ser afetados. Em doenças hereditárias, é comum que surjam dúvidas e sentimentos relacionados ao risco para outros membros da família, à possibilidade de transmissão genética, à necessidade de avaliação de filhos ou irmãos e ao acompanhamento de longo prazo.

Em alguns casos, pais podem sentir culpa ao descobrir uma condição genética em um filho, mesmo quando não havia como prever ou evitar a doença. Irmãos e outros familiares também podem apresentar preocupação, medo ou ansiedade ao saber que pode existir risco familiar.

Por isso, o cuidado deve considerar não apenas os exames e o diagnóstico, mas também o contexto emocional, familiar e social de cada pessoa. Quando necessário, o apoio de profissionais de saúde mental, reabilitação visual, terapia ocupacional, assistência social ou aconselhamento genético pode ser muito importante.

Acompanhamento de longo prazo

Muitas doenças hereditárias da retina evoluem lentamente ao longo dos anos. Por isso, o acompanhamento de longo prazo é fundamental.

A frequência das consultas e dos exames depende de fatores como:

  • diagnóstico;
  • gene envolvido;
  • idade;
  • sintomas;
  • velocidade de progressão;
  • presença de complicações;
  • fase da doença;
  • necessidade de monitorar elegibilidade para estudos;
  • impacto funcional.

A oftalmologia de precisão ajuda a individualizar esse acompanhamento, evitando tanto avaliações insuficientes quanto exames excessivos sem benefício claro.

Quanto a restrições, as orientações dependem do diagnóstico. Em geral, é importante manter acompanhamento regular, proteger os olhos conforme recomendação médica, tratar complicações quando surgirem, evitar automedicação e discutir suplementos ou mudanças de estilo de vida com o oftalmologista.

Diagnóstico não é sentença: é ponto de partida

Um diagnóstico de doença hereditária da retina pode assustar, especialmente quando o paciente pesquisa na internet e encontra informações generalizadas ou casos muito graves. Mas é importante lembrar: cada caso é um caso.

O diagnóstico correto permite sair da incerteza e construir um plano, que pode incluir acompanhamento individualizado, exames periódicos, tratamento de complicações, orientação familiar, recursos de baixa visão, avaliação genética e monitoramento de avanços terapêuticos.

A pergunta não deve ser apenas “essa doença tem cura?”, mas também:

  • O que pode ser feito agora?
  • Como está minha retina hoje?
  • Minha visão central está preservada?
  • Há complicações tratáveis?
  • Qual é meu risco de progressão?
  • O teste genético pode esclarecer algo?
  • Como posso proteger minha autonomia?
  • Quais recursos podem ajudar minha rotina?
  • Há estudos ou terapias relacionadas ao meu gene?
  • Como acompanhar minha visão da melhor forma possível?

Essa é a base de uma abordagem moderna e personalizada para as doenças hereditárias da retina.

Como funciona a consulta
com a Dra. Maria Fernanda

Etapa 1

Histórico clínico e familiar

Conversamos sobre seus sintomas, exames anteriores e casos de problemas de visão na sua família — muitas vezes, a principal pista para o diagnóstico.

Etapa 2

Exame oftalmológico completo

Avaliação detalhada da retina, da mácula, do nervo óptico e das demais estruturas dos olhos.

Etapa 3

Exames de imagem e teste genético

Exames complementares e teste genético apenas quando realmente ajudam a definir o diagnóstico ou o tratamento.

Etapa 4

Diagnóstico e plano de cuidado

Se houver diagnóstico, você sai da consulta com ele organizado, os próximos passos definidos e orientação para você e sua família.